Natércia Caneira à conversa com Orlando Franco
NC – Ao ver os vídeos senti uma espécie de confronto entre energia e opressão …como se houvesse uma contenção entre forças e tu estivesses a trabalhar ali, no limbo…entre a explosão dessa energia e o corpo enquanto invólucro.
OF – A ideia de força e energia, são conceitos que me interessam. Interessou-me muito captar toda aquela energia dos corpos numa movimentação pouco comum. Não estamos habituados a ver este tipo de movimentos, neste caso, um conjunto de gestos que foram provocados por mim. Tive a intenção de captar uma explosão… uma explosão interior, que se traduz numa espécie de terror visual, mas de uma certa libertação para o animal…
NC – De alguma forma, tu dizes que essa libertação faz parte, mas depois eles encontram-se num espaço muito contido…
OF – Sim, é um contraste…
NC – A ideia de que eles estão numa moldura, numa caixa de onde não podem sair, está presente. A seguir instalas os vídeos, pondo exactamente as pessoas nesse mesmo sítio, isso levanta uma questão que é: existe aqui um carácter humano?
OF – Não de forma ilustrativa ou metafórica. Interessa-me aquilo que os minimalistas faziam, a criação de um confronto e uma interacção com o espectador. Nesse sentido pode haver uma relação. Vão existir interpretações, um conjunto de sensações, que surgem naturalmente, mas não são planeadas.
NC- Outra coisa que eu também achei curiosa, foi o som em relação ao movimento, ele próprio parece que tem um carácter pictórico…não é só a imagem do próprio movimento.
OF – Sim, ao ser atrasado, acompanha o arrastamento do movimento do corpo. Aumenta percepção do espectador em relação ao detalhe …tu tomas atenção a todos os detalhes de uma pintura, porque ela está parada.
NC – O espectador fica como se fosse passivo – contemplativo, de uma acção que está no limiar.
OF - Sim, eu provoco a acção, a câmara capta e depois a imagem e som são apenas atrasados e reinstalados. O espectador fica atento a observar. É só isto.
NC – São elementos que reforçam a ideia de movimento, o tractor, o cavalo, este ultimo simbólico de viagem, do andar, do se movimentar, são ícones da ideia de movimento. Mas tu depois, ao mesmo tempo, tomas uma atitude passiva. Estás lá parado a filmar, como se estivesses de fora, noutra dimensão qualquer, atrás de um vidro, contemplativo dessa…se calhar tem qualquer coisa de poético…de contemplação poética…desse confronto de energia, de limiar entre a explosão de energia…
OF – É uma aproximação poética, é sobretudo isso…
Lisboa, Abril de 2008