A-na-’sta-sis- Fernanda Poeira
Imagem única. Alguns artistas repetem, ao longo do seu trabalho, uma única imagem. Apesar de muitas diferenças e versões, e da utilização de diferentes meios e suportes, procuram restituir uma única e mesma imagem. No trabalho de Orlando Franco qual é essa imagem? Na sequência que forma o conjunto de trabalhos a-na’sta-sis qual é essa imagem única?
Re-viver. A função dada à arte não é apenas fazer, a função de construir um artifício, mas também a de desfazer. O desejo de “repetição” alimenta-se, por vezes, do desejo de re-viver, de viver o “mesmo” mas de outro modo. Experimentamos nesse re-viver uma liberdade que supera as resistências daquilo que foi vivido, tal como foi vivido. Os “rituais” de purificação, ou os de renascimento, inserem-se na linha de partilha entre o trabalho da liberdade de viver e as escórias do vivido. Experimentamos também esse re-viver nessa linha (contínua e descontínua) entre o animal e o humano. Aqui o animal não é a fera, abandonada ao instinto de conservação, nem propriamente o animal domesticado, mas o animal “ritual”.
Acção-imagem. Uma “situação” não é uma acção que ocorre singularmente, como um acontecimento único, é sobretudo uma acção que recorre, sob circunstâncias determinadas. O primeiro trabalho de a.na’sta.sis é uma acção: provocar a repetição da recorrência e exibir algumas das suas condições para a imagem fixar. Se as actividades, em que nos ocupamos, são apenas meios para um fim quotidiano, e a acção livre se caracteriza por se libertar das suas condições, a “situação” aqui construída exibe a fragilidade das suas condições: rito artificial ou artificio ritual.
Imagem-acção. O interesse pela saturação da imagem é já um interesse pela imagem, por uma potência da imagem que a distingue da “imagem do real”. Assim, retomar uma escala “real”, a versão tríptica do mesmo ritual, o desacelerar do movimento da imagem, que recorre em loops, adquirem uma mesma função: saturar a imagem, e exibir a acção à concentração do espectador.
Tangibilidade. O que não pode ser repetido? O que é exterior à imagem, o irremediável, as coisas e os factos, o que é como é. Tudo o que é na sua tangibilidade resiste. Nas imagens saturadas de a.na’sta.sis persistem, e resistem, as marcas da acção e a tangibilidade do real.
Caldas da Rainha, Abril 2008